desabafo, pensamentos

Pequenas mortes dos outros quando digo que não quero filhos

Já faz dois anos que entrei na casa dos 30. Quando completei o fatídico 3.0, achei que fosse surtar. E surtei um pouco, sim. Na minha cabeça, eu sou uma jovem de 18 anos, imatura, em busca de diversão. Não assimilei que tenho todas essas responsabilidades de pessoas com 30 anos, mas vou vivendo (e convivendo) com elas.

Não sou casada, sou juntada. As pessoas pararam de me pressionar sobre isso já tem um tempo. Pelo menos as do meu convívio, quem já está acostumado com meu “jeitão”. Não vejo motivo pra fazer um festão e chamar um monte de gente que mal vejo na vida. Uma festinha pequena? Talvez eu faria. O plano familiar do clube é mais barato, talvez valha assinar um papel, não sei.

As mulheres ao meu redor começaram a engravidar. Não muitas no meu ciclo mais próximo, pois muitas delas compartilham da mesma opinião que eu sobre o assunto. Mas a galera nessa idade tá pirando com esses assuntos de casamento/filhos. E eu passando ilesa.

 

berço

 

Minha melhor amiga está grávida. Eu tenho minhas convicções sobre o que EU quero fazer, nunca vou obrigar ninguém a não engravidar, muito menos não ficar feliz pelas pessoas que escolhem ter um bebê. E isso sempre acaba gerando um certo desconforto.

Essa minha amiga grávida veio me dizer que estava com medo de me contar a novidade, pois não sabia como eu reagiria, já que eu tenho “certas opiniões sobre o assunto”. Mas eu fiquei feliz. Fiquei feliz porque o que eu quero pra mim não é o que eu quero pra ela. O que eu quero pra ela é o que ELA quer pra ela.

De certa forma, fico até um pouco chateada, pois sei que muitas pessoas com filhos têm um certo receio de trazê-los pra perto de mim, como se eu fosse uma “mulher que odeia crianças” (embora não ame muito aquelas que são malcriadas). Eu não odeio crianças, eu não detesto crianças e eu não gostaria que elas fossem extintas da humanidade, eu só não quero uma pra mim.

Meus motivos? Talvez um dia eu fale sobre eles. São muitos, desde pessoais, até mundiais.

O mais engraçado é que essa minha amiga grávida me chamou pra ser madrinha da criança. Acho que, no fundo, ela sabe que eu vou fazer o que estiver ao meu alcance pra que esse bebê seja o mais feliz do mundo, e é genuinamente o que eu quero pra ele, ou ela, não sabemos ainda.

Então vamos seguir assim, eu com minha ausência de vontade de ter um filho, você fazendo o que quiser sobre o assunto e a gente se respeitando. Eu faço o maior esforço pra respeitar seja lá quem for que tenha a opinião diferente da minha, então é só isso que eu peço em troca.

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A Grande Morte do Ano que Acaba

Não adianta, sempre que o ano vira, é aquele drama. Pessoas jurando que vão melhorar, outras prometendo mil coisas pro ano novo, algumas traçando metas mirabolantes e dizendo que esse ano, sim, vai dar certo.

Eu não faço planos. Eu não traço metas. Eu não estabeleço objetivos. Fiquei pensando se isso é triste ou trágico demais e se eu deveria abolir esse meu jeito cruel (pra alguns) de encarar o ano novo. Mas eu acho que não e vou explicar por quê.

Na real, sempre que tracei algum tipo de meta pra mim e, ao chegar no fim do ano, via que não havia cumprido, uma nuvem negra pairava sobre minha cabeça e eu sofria. Sofria por ter fracassado, por não ter sido boa o suficiente, por não ter me atentado ao meu plano. Sofria por ter falhado e isso não fazia nada bem pra mim, pois, ao invés de eu maneirar nas metas para o ano seguinte, eu fazia MAIS metas, e MAIS mirabolantes ainda.

 

plannerjaneiro2019

 

Quando eu parei de traçar metas e encarei a passagem de ano não como um recomeço, mas como mais um dia, as coisas começaram a fluir um pouco mais. Quando eu percebi que a gente não precisa de uma data definida pra melhorar, pra tentar fazer o bem pros outros (ou pra si mesmo) ou botar algum plano em prática, seja viajar ou entrar na academia, a cobrança foi amenizada. Se eu não tenho planos, eu não vou sofrer por não ter cumprido.

“Mas então você não traça planos pra sua vida, não?”

Claro que traço. Sem planos a gente para, não é? Mas não dependo de datas e números pra traça-los ou botá-los em prática, sabe? Se eu tiver vontade de colocar um plano em prática em novembro, por que esperar até 2019 só pra que ele vire meta de ano novo? E se eu não estiver me sentindo segura, por que iniciar algo em janeiro se eu posso ponderar e analisar mais a situação?

Então, é basicamente isso. 2018, 2019, 2020, não importa. Pra mim, o importante é ter objetivos, ter metas, mas não depender de um período X ou Y de tempo pra executá-los. Assim a gente vive menos pressionado por nós mesmos, já que a sociedade já faz seu brilhante papel em nos fazermos sentir pressionados o tempo todo. Se ela não me dá uma folga, eu mesma me darei e pronto.

desabafo

Pequenas Mortes das Minhas Opiniões

Resolvi parar de dar minha opinião pra quem não quer ouvir. Simplesmente porque, nos dias de hoje, ninguém está lá muito interessado em ouvir qualquer coisa que não seja a mesma opinião que já tem.

Olha o que tá acontecendo na política, por exemplo. Há brigas fortíssimas nas redes sociais por causa de um ou outro político, mas tá todo mundo se fodendo igual na vida real. Pessoas que param de se falar por causa disso, mas que poderiam continuar sendo grandes amigos, só que com opiniões. Não quero isso pra mim, não quero perder amizade por causa de nenhum tipo de posicionamento. Mas pelo visto as pessoas querem.

Não vou discutir mais com fiscais do corpo alheio, não vou mais tentar fazer ninguém entender que auto estima não está relacionada com emagrecer. Também não vou tentar mais provar pra ninguém que sou saudável.

 

fingirdemencia

 

De política, então, já não é de hoje que me isentei de ter (ou expor) um posicionamento. Qualquer coisa que você fala, e friso, QUALQUER COISA MESMO, será voltada contra você, mesmo que você esteja concordando com a pessoa, só que em outras palavras. Então pra que dizer qualquer palavra?

O termo “fingir demência” nunca fez tanto sentido pra mim e eu nunca usei tanto quanto agora. “O que você acha sobre tal coisa?” Finjo demência. “Qual é sua opinião sobre tal coisa?” Finjo demência.

Eu tenho opiniões, mas no momento vão ficar guardadas só pra mim. A não ser que seja um absurdo tão grande que eu não aguente ficar em silêncio.

O problema é que geralmente é.

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Sozinho no Meio de Todos

Olhar em volta e não se ver. Olhar em volta e não se reconhecer. Olhar em volta e ver muita gente conhecida, mas ao mesmo tempo não ver ninguém. Sentir-se sozinho. Sentir-se vazio. Sentir-se incompreendido.

Andar pela rua sozinho e se encontrar nos pensamentos. Ter as melhores ideias na hora do banho. Perceber que a cabeça está funcionando melhor quando há uma parede entre você e o resto do mundo.

Analisar as relações. Sentir o que vale ou não carregar consigo. Dúvida. O que escolher? Será que escolher é necessário? Por que não deixar acontecer? Não, nada se acerta se você não agir. Nada se acerta se você não ponderar. Nada se acerta se você não pensar.

 

ansiedade

 

Falar e sentir que ninguém ouve. Expor opiniões e notar que ninguém entende. Gritar por dentro por um medido de socorro e ter certeza que foi só para você. Só você ouve. Só você clama. Só você chama. Mas ninguém ouve.

Pequenas mortes de você mesmo. Pequenas mortes de suas certezas. Pequenas mortes da sua aparência que você diz aceitar, mas nem sempre é fácil. Os anos vão passando. Não era para a vida estar se acertando? Não dá para saber.

E daqui pra frente, pra onde que vai?

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Não Somos Objetos

Na vida moderna de hoje em dia, usamos objetos para tudo. Sempre estamos com o celular na mão, temos panelas para cozinhar, carro para nos locomover, bebida pra deixar a gente alegrinho, não dormimos mais no chão, e sim numa cama quentinha e confortável, enfim, temos vários recursos materiais pra usar em nossa volta.

Nós não somos objetos. Nós somos pessoas. Não nascemos para sermos usados. Temos sentimentos, falamos o que pensamos, temos opiniões, somos gente. Quando alguém nos maltrata, nos ofendemos, quando somos legais e não recebemos o mesmo de volta, ficamos chateados, quando fazemos coisas que não queremos por estarmos pensando no bem do próximo, muitas vezes sofremos.

marionete

Sofremos sem precisar quase sempre. Às vezes encarnamos o papel de objeto e não percebemos. Às vezes somos usados apenas quando necessários e depois descartados, deixados de lado, jogados fora. E muitas dessas vezes, aceitamos. Tentamos achar uma justificativa para esse tipo de comportamento do outro e não nos posicionamos. Até que chega uma hora que surtamos, uma grande morte que poderia ter sido evitada com várias pequenas mortes no meio do caminho.

Sutamos por enxergarmos aquilo que não queríamos, por percebermos situações que antes fazíamos de tudo para ignorar, por ficar óbvio que nossa posição vai ser sempre, apenas, de objeto. E, quando percebemos isso, é libertador.

Quando deixamos de aceitar nossa posição de objetos, não nos contentamos mais com o pouco. Queremos, pelo menos, o mínimo de volta do que fazemos. Queremos ser enxergados como gente que tem sentimentos e que fica chateada quando algo machuca.

Não, em um relacionamento, seja ele amoroso, de amizade, ou profissional, você não pode só fazer o que quer. Você precisa ser gentil. Você precisa ouvir. Você precisa acreditar na palavra “consenso”. E, acima de tudo, você precisa prestar atenção nos sentimentos dos outros e é necessário haver equilíbrio nisso tudo.

Afinal de contas, objetos foram feitos mesmo para serem usados. Pessoas, não.

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Pequenas Mortes com os Cachorros dos Outros

Passeio com minha cachorra duas vezes por dia, uma de manhã, enquanto ainda não está aquele sol escaldante, e uma de noite, que no horário de verão acaba sendo mais de sete da noite. Faço de tudo pra fugir de horários quentes porque é isso que um dono consciente deveria fazer, certo?

É, na teoria é isso mesmo. Mas na prática, tudo muda. Vejo gente passeando com o cão ao meio dia, gente que nunca passeia, cachorros estressados mostrando os dentes pelo portão enquanto ando com a minha, vejo de tudo. Mas três casos sempre me chamam a atenção e não ando nem dois quarteirões para encontrar com eles. Imagina o que não acontece na cidade toda?

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O primeiro caso é da Golden Retriever revoltada. Já soa estranho ler o nome dessa raça e a palavra “revoltada” logo depois, não é? Pois é. Ela já chegou a morder o focinho da minha cachorra em uma bobeira que dei. Ela fica presa o dia todo em um espaço pequeno e ninguém passeia com ela. É a mais que causa pequenas mortes de angústia em mim todos os dias.

O segundo caso é o vira-lata que nunca vi direito, porque ele fica preso em uma garagem que, geralmente, está cheirando a necessidades caninas. O portão é fechado, então nem ver a rua ele consegue. Quando passo, ele late MUITO de forma desesperada, tenho vontade de levar para minha casa.

O terceiro, mas não o último, é um cachorro que nunca vi, nem sei que raça é nem que tamanho tem, mas sempre que eu passo na frente do portão dele, ele se joga (acho que pra tentar atacar a minha) e faz um barulhão. Morro de medo d’ele se machucar, parece que o espaço que ele tem é só aquilo, na área da frente da casa, mas não posso afirmar com certeza, não dá para ver nada.

Esses são só três míseros exemplos das barbaridades que vejo diariamente. Cachorros que os donos soltam para passear sozinhos correndo pelas ruas, cachorros sendo xingados pelo dono porque estão fazendo xixi ou cocô (depois prende e desenvolve um problema de saúde e o dono fica com cara de ponto de interrogação), é tanta coisa que me dá um aperto constante no coração.

Gente, arruma cachorro sim, é super legal, mas se não for pra cuidar, deixa pra quem cuida, combinado? Obrigada.

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Pequena Morte de Ano Novo

As crianças e pré-adolescentes de hoje em dia têm interesses diferentes do que as do meu tempo, e usar a expressão “do meu tempo” já mostra que eu fui criança há muito tempo. Mas se tem uma coisa que ainda não mudou é o fato de saírem às ruas para pedir Ano Bom. Nem amanheceu direito e lá estão eles enfiando os dedos nas campainhas das pessoas, que nem sempre são receptivas.

Uma semana depois do Ano Novo, fui ao cinema. Sempre escolho as segundas-feiras, pois todo mundo paga meia entrada e meus áureos tempos de carteirinha de estudante já eram. Como era época de férias, não tinha muito dia certo pra encontrar criança. Não precisavam fazer o dever nem acordar cedo. Entrei na fila pra comprar ingresso e, na minha frente, três meninos com cara de ter seus dez, onze anos.

Chegou a vez deles. A moça perguntou qual filme eles queriam ver, eles disseram e começaram a despejar várias moedas no guichê. Mas várias mesmo, não tinha nenhuma nota. Reparei na cara da moça do caixa, mas ela parecia não se importar com a situação. E, de fato, ela estava é feliz, porque disse que eles estavam renovando o estoque de troco dela.

Não satisfeita em apenas rechear sua gaveta de troco, perguntou:

– Onde vocês arrumaram tanta moeda?

Os meninos, orgulhosos, disseram:

– É nosso dinheiro do Ano Bom, moça! Decidimos juntar tudo e vir ao cinema. Quem ganhou mais vai ajudar quem ganhou menos.

moedas

Ela sorriu e olhou pra mim, pois estava demorando um pouco até eles contarem aquela quantidade imensa de moeda e, hoje em dia, nem todo mundo tem paciência pra esperar essas coisas. E eu só sorri. Ela sorriu de volta e continuou contando, tirou os ingressos pra eles e desejou bom filme. Eles foram felizes para a fila da pipoca, aparentemente tinha dinheiro suficiente até pra passar na bombonière!

E eu fui bem satisfeita comprar meu ingresso. Satisfeita em saber que as crianças estão querendo gastar a graninha que batalharam pra ganhar em cinema. Satisfeita pela moça não ter ficado irritada ao ver um monte de moeda chovendo na frente dela. Satisfeita por ter presenciado um momento tão simples, mas tão cheio de coisas bonitas. Satisfeita por ter ouvido que os meninos se ajudariam e dividiriam a grana.

Uma bela pequena morte da minha falta de esperança.